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EG001POR
ECONOMIA
E VALORES MORAIS
Os tempos modernos sao dominados por um sentimento generalizado de que economia e moralidade sao intrinsecamente incompativeis. Moralidade, acredita-se, lida com valores intangiveis. Ela trata daquilo que eh mais tipicamente humano, pessoal e emocional a respeito do homem, enquanto que a economia, por sua propria natureza, desumaniza e despersonaliza. A economia coloca etiquetas de preco (valores tangiveis) em tudo, e considera o individuo fundamentalmente como uma unidade de producao e consumo dentro de um amplo sistema impessoal. A moderna "etica de negocios" afirma, efetivamente, que este aspecto impessoal da economia moderna eh inevitavel. Para produzir a abundancia que todos desejamos, diz-se, a taxa de producao deve crescer continuamente. Aquilo que nao contribui para aumentar continuamente a produtividade eh considerado irrelevante e prejudicial para a economia e, consequentemente, para o bem-estar publico. "O que e bom para a General Motors eh bom para todos". Criando, desta forma, uma oposicao entre economia e moralidade, entre os valores tangivel e intangivel, aqueles que defendem este ponto de vista procuram justificar o sistema economico, eximindo-o de uma vez por todas de controles extrinsecos subjetivos, em favor de consideracoes "puramente economicas". Eles nao tem nada a temer da aceitacao publica da oposicao economia-moralidade, pois parece claro que, sendo a natureza humana aquilo que eh (ou, melhor, aquilo que eles imaginam ser), as pessoas nao hesitariam em escolher valores tangiveis ante os intangiveis. E, no entanto, eh agora claro que um consideravel numero de pessoas, especialmente entre os membros da atual geracao mais jovem, estao desejosos de fazer a escolha oposta. Se a desumanizacao eh o resultado inevitavel do presente sistema economico, dizem eles, entao vamos nos livrar do sistema. A natureza humana, parece, nao eh tao claramente unanime, no final das contas. Nao eh nenhum exagero dizer que a guerra esta declarada, e que o resultado final desta oposicao nao eh certo e nem inconsequeente. Pode-se, todavia, questionar a validade da oposicao entre valores morais e economicos. Eh perfeitamente possivel que os valores desumanizantes associados com nosso moderno sistema economico preceda o sistema, ao inves de advir dele. Talvez nao seja tanto o dinheiro que corrompe mas, sim, que pessoas corruptas estejam usando a riqueza de forma corrupta e para fins corruptos. Talvez, em resumo, nosso sistema economico seja simplesmente um reflexo externo e concreto de nossa vida interior coletiva, que os enormes recursos da tecnologia moderna permitiram magnificar e projetar em grandes dimensoes. Eu nao digo que esta hipotese seja tao evidente a ponto de exigir uma aceitacao imediata, mas ela eh plausivel o suficiente para ser digna de uma seria consideracao. Algumas coisas ocorrem de imediato para reforcar esta plausibilidade inicial. Por exemplo, nos anos recentes, a comunidade de negocios vem reconhecendo abertamente que valores intangiveis podem afetar severamente a produtividade. Ao inves de levar a uma maior consideracao dos empregados como individuos, esta constatacao deu lugar a um enfoque manipulativo das relacoes humanas, em uma tentativa de induzir atitudes "corretas". As ciencias sociais foram aplicadas para produzir "consideracao" instantanea e para exalarem sinceridade, de modo a se assegurar ao individuo que se esta genuinamente interessado nele. Assim, mesmo quando se tornou pragmaticamente util a introducao de valores intangiveis no sistema de producao, escolhiam-se substitutos impessoais, embora estes nao fossem necessariamente os mais eficientes. Isto certamente diz algo a respeito de nossa vida interior, nossa estrutura psicologica e nosso carater moral, independentemente do sistema em si. Considerar-se a economia como primariamente um reflexo de nossa moralidade tem profundas implicacoes na compreensao da dinamica de nosso sistema economico. Uma consequencia deste enfoque eh que nao se pode alterar significativamente o sistema economico sem mudar a moralidade. Eh, portanto, da maior importancia considerar se esta analise eh correta. Vamos comecar com um "thought experiment" (ou seja, um experimento imaginario). Imagine-se um ponto ideal de comeco para nossa historia, no qual existiam apenas individuos e nenhuma organizacao social (Um tal instante inicial certamente nunca existiu, porem milhares de anos atras, quando a consciencia do homem estava apenas um pouco acima do nivel animal, deve ter havido algo que se aproximasse disto). Neste estagio imaginario de relacionamento, a liberdade do ser humano com relacao aos vinculos sociais eh total, uma vez que nao ha sociedade para impor vinculos. O individuo deve produzir tudo o que consome, e ele eh o unico consumidor de tudo o que produz. O ciclo economico completo esta fechado no individuo. Pode-se dizer, de uma forma geral, que o individuo em sociedade esta sujeito a dois tipos de vinculos. Em primeiro lugar existem os vinculos pessoais, impostos pelas necessidades internas do individuo, que clamam por satisfacao. Estas sao parcialmente tangiveis _ a necessidade de alimento, abrigo e outras _ e parcialmente intangiveis. Em segundo lugar vem os vinculos sociais, que sao demandas externas, colocadas no individuo pela sociedade, no intento de forca-lo a desempenhar um papel nela. Do ponto de vista do individuo, toda forma de organizacao social desenvolvida pelo homem pode ser vista como um compromisso entre estas duas forcas: a necessidade individual de uma certa auto-realizacao, por um lado, e a necessidade social de ordem e controle do outro. O grau de liberdade de um individuo em sociedade pode, portanto, ser decomposto em duas componentes: seu grau de liberdade relativo as necessidades internas e o seu grau de liberdade relativo as necessidades externas, demandas sociais ou vinculos. Na situacao ideal que estamos imaginando, o individuo eh totalmente livre de vinculos sociais, pois nao ha sociedade. Ele eh, porem, ao mesmo tempo, uma presa para suas necessidades pessoais internas, de fato aquelas mais basicas, as fisicas. A segunda componente de sua liberdade eh infinita, enquanto que a primeira eh nula. Se a doenca, fraqueza ou alguma leve calamidade natural impedi-lo de sua atividade por um periodo muito longo, ele morre. Nao eh apenas o ciclo economico de producao e consumo que esta fechado no individuo, mas o proprio ciclo da vida. Tendo, agora, adquirido uma ideia do estado economico de um individuo sem sociedade, vamos considerar precisamente o modo pelo qual a organizacao social realmente contribui para mudar este estado de relacionamento. Nosso estado ideal foi caracterizado por dois fatos basicos: O individuo produz tudo o que consome e eh o unico consumidor daquilo que produz. A unica maneira de alterar este padrao eh fazer com que outras pessoas produzam algo que o individuo consuma ou entao que outras pessoas consumam alguma coisa que o individuo produz. Como a situacao eh simetrica com relacao a dois ou mais individuos, ambas alternativas implicam na mesma coisa, ou seja: na DIVISAO DO TRABALHO. A divisao do trabalho eh, portanto, logicamente o primeiro passo em direcao a sociedade, ao menos do ponto de vista puramente economico. Divisao do trabalho eh uma ferramenta de organizacao social que nao pressupoe qualquer estagio de tecnologia, embora sua expressao concreta em uma sociedade particular seja obviamente afetada pela tecnologia existente. A divisao do trabalho pressupoe de fato, todavia, certas formas de relacionamento humano. Por exemplo, para que um individuo aceite parar de produzir alguns itens de que ele necessita, ele deve confiar em que outros vao produzi-los. De forma semelhante, os outros devem confiar em que ele va produzir coisas de que eles necessitam. Uma confianca mutua deve existir. Uma confianca mutua eh a base da divisao do trabalho e eh, portanto, a pedra fundamental da propria sociedade. Sao valores intangiveis que produzem os tangiveis. Esta confianca mutua tem dois aspectos: Eh, em primeiro lugar, uma confianca no individuo, de que ele vai honestamente procurar cumprir seu dever de produzir a porcao de que os outros necessitam e que nao estao mais produzindo. Eh, tambem, uma confianca na propria organizacao social, de que ela vai exigir que outros individuos cumpram o seu papel necessario e de que ela vai assegurar que cada individuo receba aquilo de que necessita e que nao mais produz. Desta forma, todos os aspectos essenciais da moralidade estao implicitos desde o comeco: disciplina individual, obediencia, confianca, etica individual, responsabilidade social, e assim por diante. Isto eh, tambem, o comeco de uma tensao basica, pois agora o individuo esta para sempre sujeito a duas forcas distintas, a forca interna de suas proprias necessidades e desejos e a forca externa da sociedade, a qual exige que ele realize certa funcao social. O individuo, por outro lado, eh liberado da necessidade de produzir certas coisas das quais ele necessita, pois elas estao agora sendo produzidas por outros. Seu grau de liberdade interna aumentou ao passo que diminuiu seu grau de liberdade externa. A organizacao social permitiu ao individuo maior liberdade interna e auto-realizacao as custas de um decrescimo em sua liberdade externa. No estado original de relacionamento, puramente individual, a auto-realizacao do individuo nunca se ergueu acima daquela de pura sobrevivencia fisica, pois o esforco pela sobrevivencia tomava todo o seu tempo e sua energia. Nao havia qualquer desenvolvimento intelectual, espiritual ou outro igualmente intangivel, pois as necessidades fisiologicas puras forcavam o individuo a viver num nivel animal. Tampouco havia "progresso" de uma geracao para a proxima, pois cada geracao recomecava sempre no mesmo nivel. Isto mostra o quao social sao nossos mais intimos sentimentos e pensamentos. Tudo o que nos eleva acima de um nivel animal de existencia origina-se de um certo nivel de organizacao social que, por sua vez, depende da existencia de um certo nivel de funcionamento moral. Podemos dizer, portanto, que a forma particular de organizacao de uma dada sociedade em um dado instante eh uma expressao desta moralidade basica da qual ela depende. A economia depende da moralidade. Podemos ver, tambem, que a direcao basica da evolucao social eh no sentido de maximizar progressivamente a liberdade interna do individuo, exigindo, concomitantemente, um nivel de organizacao social mais refinado e mais delicadamente balanceado. O objetivo da sociedade dificilmente pode ser tomado como sendo apenas (ou prioritariamente) a satisfacao das necessidades fisicas puras dos individuos, pois estas ja estavam mais ou menos satisfeitas no estagio mais primitivo. Sociedade nao eh, claramente, apenas um grupo de individuos que convivem, mas, sim, o conjunto dos individuos mais a qualidade do relacionamento existente entre eles. Eh, portanto, possivel a existencia de algo proximo de nosso estado original imaginario, mesmo dentro de grandes coletividades, se o relacionamento mutuo de confianca e outros aspectos essenciais da moralidade estiverem suficientemente ausentes. Como a existencia do relacionamento eh, novamente, funcao da moralidade basica, podemos resumir a situacao da seguinte forma: Comunidades imorais e amorais, mesmo grandes, tendem a um nivel de existencia puramente animal, no qual cada homem esta por si so, e onde a liberdade interna tende a zero. A divisao do trabalho eh uma ferramenta de organizacao social que representa o primeiro passo acima de um nivel puramente animal de existencia. Como progresso social, a divisao tende naturalmente ao desenvolvimento de pericias individuais e, portanto, a uma maior especializacao. Um segundo passo basico no desenvolvimento ocorre quando o conhecimento e as habilidades necessarios para a manutencao do sistema social se tornam grandes demais para serem manejadas individualmente. Ha necessidade de um segundo nivel de organizacao para manter o primeiro. Existem, entao, professores e intelectuais que se concentram na compreensao dos conhecimentos basicos e na transmissao destes de uma geracao para a proxima. Existe uma percepcao mais explicita da importancia exercida pela qualidade do relacionamento humano necessario ao sistema. Existem aqueles cuja obrigacao passa a ser o estudo e a compreensao desta moralidade e a sua transmissao para as outras geracoes. Existem sacerdotes, filosofos e moralistas. Ha, finalmente, a necessidade de que certas pessoas concentrem-se na administracao do processo. Estes sao os juristas, os supervisores e administradores de tipos diversos. Nao importa quao simplificado este esquema possa parecer, um ponto esta acima de qualquer discussao: Este nivel secundario de especializacao do trabalho caracteriza-se pelo fato de alguns de seus membros nao mais produzirem alguma coisa diretamente. O professor, o sacerdote, o intelectual e o administrador consomem mas nao produzem coisas tangiveis. O nivel secundario de organizacao necessita, portanto, para sua manutencao, um nivel mais elevado de producao economica. A industria moderna tem provido a sociedade ferramentas poderosas para chegar a este ponto. Nas sociedades pre-industriais, porem, parecia haver uma unica resposta para isto __ ou seja, a criacao de uma classe que produzisse consideravelmente mais do que consumia, de modo a compensar a classe intelectual, que consumia mais do que aquilo que produzia [no campo do tang¡vel]. E foi assim que algumas formas de escravidao ou servidao tornaram-se instituicoes basicas da sociedade humana. Esta aparente inevitabilidade de alguma forma de servidao involuntaria e confirmada pelo fato de ter sido um traco comum a todas as sociedades antes que o nivel de industrializacao do seculo XX fosse atingido. Nao ha excecoes. Foi apenas no seculo XIX que os escravos foram libertados na America do Norte, que os servos foram libertos na Russia e que o comercio escravista foi abolido nas Colonias Britanicas. Ainda assim, a servidao industrial vem tendo continuidade na Europa e na America do Norte atraves do seculo XX. Alguem poderia tentar argumentar que seria realmente possivel eliminar o trabalho forcado na sociedade pre-industrial. E, no entanto, eh um dos fatos mais conhecidos da Historia que nenhuma sociedade pre-industrial jamais o fez. Nenhum dos grandes profetas religiosos do passado, nem Moises, nem Jesus nem Maome, proibiu a escravidao. Talvez a existencia do nivel secundario de organizacao social seja tao dependente da escravidao que proibir escravidao fosse equivalente a proibir sociedade. Se os grandes Profetas, porem, nao proibiram a escravidao, eles deram passos significativos no sentido de humanizar aquela instituicao tanto quanto possivel. Alem de editar varias leis menores que asseguravam bom tratamento para os escravos, Moises garantiu-lhes alguma folga exigindo uma suspensao total to trabalho a cada sete dias. Deste ultimo principio, Jeova fez um de Seus dez mandamentos, representativos dos principios morais mais basicos de seu sistema. Jesus enfatizou o valor intrinseco do individuo, ensinando que cada um eh capaz de estabelecer um certo relacionamento interno com Deus, um relacionamento nao condicionado pelo status social ou economico. A manifestacao visivel deste relacionamento envolvia uma certa reciprocidade baseada em uma nova forma de amor (agape). Os primeiros Cristaos consideravam este relacionamento primariamente entre individuos, nao implicando necessariamente em mudanca no status social. Assim mesmo, podemos ver, na exigencia de Paulo, de que Filemon aceitasse o escravo Onesimo como irmao, uma atitude em favor dos escravos (se nao em favor da escravidao) sem duvida significativamente distinta daquela usualmente encontrada na sociedade Romana. Sejam os modernos reformadores cinicos se assim o quiserem, mas os escravos, na sociedade Romana, apreciaram, indubitavelmente, a diferenca. A atitude dos Cristaos brancos, senhores de escravos, em relacao aos escravos negros, na America do seculo XIX, eh mais uma ilustracao da forca dos ensinamentos de Jesus de uma forma estranhamente negativa. Compreendendo que a pratica de escravizacao brutal sobre um colega HUMANO era contraria ao ponto de vista Cristao sobre o homem, alguns Cristaos brancos persuadiram-se de que os negros nao eram homens __ isto e, eles seriam uma especie subumana. Isto lhes permitia escravizar negros e salvar suas consciencias ao mesmo tempo. Isto explica tambem por que diferencas raciais superficiais eram tao importantes na visao branca da escravidao. Era a unica maneira pela qual a escravidao podia ser moralmente justificada em termos Cristaos. Uma crenca similar a da subumanidade dos negros desenvolveu-se entre os colonos na Australia com relacao aos aborigenes, que eram cacados por esporte. O Islam fez da escravidao uma instituicao auto-liquidante, ao encorajar a conversao de todos os homens e ao reconhecer qualquer crianca nascida de um Muculmano como um ser livre. Isto destruiu a base da escravidao hereditaria e criou uma avenida para a integracao de escravos libertos ou filhos de escravos na sociedade. Alem disso, na sociedade em que Maome nasceu, as mulheres eram escravas virtuais. Elas eram compradas e vendidas tanto para o prazer sexual como para a servidao economica. Maome deu as mulheres, no casamento, fortes direitos, que nao podiam ser facilmente ignorados pelos homens, e exigiu a sua protecao por parte dos homens. Estes poucos exemplos servem, nao so para ilustrar um pouco do relacionamento entre as religioes reveladas e os aspectos economicos da vida humana, mas, tambem, para dar uma ideia do papel e do proposito da religiao. Os Profetas e Fundadores de religioes ensinaram aquilo que, dado o nivel de tecnologia existente em suas sociedades, tendia a produzir a maior unidade social e o maior progresso possiveis, com a maxima auto-realizacao para o indivíduo.
Resumo do Autor: William S. Hatcher eh Matematico e Filosofo dividindo seu tempo entre as atividades de professor de Matematica na Laval University em Quebec City, Canada, e como pesquisador visitante no Steklov Mathematical Institute da Academia de Ciencias da Russia, St. Petersburg, Russia. Resumo do Tradutor: Carlos Schwab eh Fisico, graduado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com Mestrado da área de eletrônica quântica na UNICAMP e Doutorado na área de Espectroscopia Molecular na Ludwig-Maximilians-Universitaet. Éatualmente pesquisador do Centro de Estudos Avançados do CTA, em São José dos Campos (SP).
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